Um terrível problema vem acontecendo, decisões dramatúrgicas drasticamente questionáveis e um texto pobre atrapalham a última temporada de Game of Thrones.

Alerta de spoiler da atual e antigas temporada de Game of Thrones.

A guerra contra os White Walkers acabou, o temível (ou nem tanto assim) Rei da Noite morreu nas mãos de Arya (Maisie Williams) e junto com o ele, o fim do inimigo em comum, reacendem as batalhas pessoais que haviam ficado esquecidas.

Toda dramaturgia tem que ser política? Não. Toda dramaturgia tem que ser preocupada com emissões ficcionais? Não. Ela pode sim, se quiser, tomar a decisão de ser mais que só um pedaço de entretenimento, sem se esquecer nunca que é entretenimento. À primeira vista, mesmo que com tropeços no percurso, Game of Thrones parecia ter assumido seu descompromisso com estabelecimentos sócio-políticos, mas preservando ali um ou outro ponto de apoio intelectual contemporâneo.

Contudo, a defesa de que a série não precisa ser engajada esbarra num problema incontornável bem maior: construção de personagem. O que a série construiu por sete anos só precisou de alguns minutos para ser devastado.

Acompanhamos o crescimento de Sansa (Sophie Turner) e tudo que ela passou para chegar ao ponto de ser a mulher forte e madura que luta pelo próprio lar. Esse crescimento tem a ver diretamente com a percepção de mundo que se expande quando uma menina mimada perde suas defesas.

Sophie Turner/Game of Thrones/ © HBO

Entenda, a jornada de Sansa é muito mais sobre ela começar a enxergar do que as experiências que homens terríveis a fizeram sofrer. Joffrey Baratheon (Jack Gleeson), Petyr Baelish (Aidan Gillen) e Ramsay Bolton (Iwan Rheon) não merecem crédito algum por terem-na “deixado mais forte”.

O alerta é ouvido, porque também estávamos acompanhando os roteiros insistirem num antagonismo entre ela e Daenerys (Emilia Clarke) que não tem nenhum sentido prático.

Parece que chegamos até aqui para descobrir que os roteiristas não estavam fortalecendo uma personagem, só estavam escondendo as evidências de que, no fim das contas, Sansa está à mercê do que os homens fizeram por ela e brigando com outra liderança feminina forte simplesmente porque “é isso que as mulheres fazem”. Chega a ser absurdo quando notamos que, atualmente, a série baseia todas as suas maiores tensões em antagonismos femininos: Sansa e DaenerysDaenerys Cersei (Lena Headey).

Gwendoline Christie/ Game of Thrones/ © HBO

Outro personagem completamente descaracterizado é a de Brienne (Gwendoline Christie) que saiu de um episódio em que alcançava a honra de ser uma Cavaleira para ser “aquela mulher virgem”. A personagem poderia ter morrido honradamente na batalha, mas a fizeram viver para torna-la uma deslumbrada que chora quando o “amado” precisa partir. Novamente entenda, transar não é o problema. Arya transou e saiu dessa experiência com sua trajetória ilesa.

O que aconteceu, contudo, foi uma completa descaracterização da nova Cavaleira, numa cena – com um texto e uma direção – que não respeitam tudo que ela foi até aqui. O que sobra para ela até o fim? Esperar e chorar pelo homem que se foi? É inconcebível e injustificável, mesmo que na cabeça dos roteiristas houvesse uma tensão sexual entre ela e Jaime que precisava ser resolvida. Existiriam dezenas de formas de fazer isso sem que Brienne escorresse de si mesma no meio do processo.

Peter Dinklage/Game of Thrones/ © HBO

É difícil imaginar que o Tyrion (Peter Dinklage) da primeira temporada contaria pro Varys, chefe dos espiões que serviu cinco ou seis monarcas, sobre o Jon ter direito ao Trono de Ferro. Também é difícil imaginar que aquele Tyrion ia esquecer de avisar a Daenerys que essa informação está se espalhando. E finalmente, o Tyrion da primeira temporada nunca ia esperar que a irmã Cersei fosse se render para alguém com um exército pela metade, especialmente alguém que manda o irmão que ela mais detesta como porta-voz.

Mas o que fez escrever de fato esse texto, foi o caso mais grave, Daenerys. É até possível compreender e vislumbrar o que a trajetória dessa última temporada pretendia para ela: fazê-la perder.

Emilia Clarke/Game of Thrones

Daenerys perdeu primeiro um dragão, depois um exército, depois o direito ao trono, depois o seu mais fiel escudeiro, depois um outro dragão e até mesmo sua companhia feminina mais amada. O que os roteiristas querem, claramente, é entregar Daenerys a um estado de fúria que lhe turvaria as vistas e a faria tomar decisões pessoais, acerca do próprio desejo de vingança, sem fazer aquilo que a vimos ser preparada por anos para fazer: pensar no bem maior. Ela veio para não ser a tirana, para refutar a reputação dos Targaryen, mas os roteiros continuam levando-a ao extremo, numa sinalização de que agora vale mesmo é ver mais mulheres sendo cruéis umas com as outras e porque sim.

Sua fiel e talvez única amiga Missandei, foi degolada para estabelecer aquela que seria (segundo a cara levemente retorcida de Daenerys ) a “gota d’água”. A soberania de Khaleesi no trono não deveria estar sendo nem discutida. Ela trabalhou para isso desde sempre.

Jon Snow (Kit Harington) na sua ação mais Ned Stark (Sean Bean) até agora, promete pra Daenerys que não vai revelar sua identidade Targaryen para que ela possa ficar com o trono. Uma cena depois, ele faz exatamente o contrário com as irmãs Stark, que confiam tanto na “rainha dragão” quanto confiam em um Lannister.

De repente, todo esse imbróglio começou a parecer sem sentido, já que a busca por ele está fazendo com que os personagens, um a um, sofram com descaracterizações a favor do “grande espetáculo”. Transformar tudo em uma vingança pessoal de Daenerys era mesmo o que estávamos esperando para ver? O que queríamos era esse clima de quem é filho de quem, quem vai trepar com quem, quem vai ou não ter direito a um trono velho e desconfortável? Bom, se era, Game of Thrones alcançou seu apogeu.

Kit Harington / Game of Thrones

Fomos seduzidos, vibramos com o dragão sendo atingido e morto, com Missandei sendo decapitada, tentamos viver nossa experiência enquanto fãs da maneira que sonhamos, porque foram anos até aqui, não queremos borrar o momento problematizando demais. Mas, essa experiência está sofrendo turbulências causadas por simples exercício de bom-senso. Essa foi a série que começamos a ver e essa é a série que não reconhecemos mais. Restam dois episódios, e que Deus nos ajude viu.