henry-cavill-in-batman-vs-superman-movieParticularmente, acredito que é, ingenuidade pensarmos que apenas filmes autorais podem dizer algo sobre o atual momento que vivemos. Obviamente certos filmes ultrapassam seu valor mercadológico e, apesar desse não ser o seu principal objetivo, os chamados “Blockbusters” podem possuir uma consciência critica além de provocar interessantes reflexões sobre o nosso tempo.

O filme do diretor Zack Snyder, acaba inserindo esse conteúdo nas mais diversas camadas de significados, para muito além da capa do Superman e da máscara do Homem-Morcego, há algo a ser dito e é por isso que o universo da DC Comics nasce tão maduro e grandioso.

Digamos que a tarefa em fazer Batman v Superman dar certo é extramente fácil e extramente difícil ao mesmo tempo, levando para lado otimista de um fã ou um telespectador “civil”, o filme que unirá os dois maiores heróis das historias em quadrinhos não pode ser, em nenhuma circunstancia um filme ruim ou um fracasso de publico e bilheteria. Para aquele fã de quadrinhos e o público “civil” mais desconfiado, ou, com uma certa falta de senso de descrença, pode achar que o combate entre tais personagens é algo totalmente sem cabimento, um absurdo ou uma tremenda besteira, levando um filme ao ruim e sem história.

batman-vs-superman-2Críticos americanos, que tiveram a possibilidade de assistir o filme uma semana antes de sua estreia, deram adjetivos animadores ao filme, porém, existe uma observação que preciso destacar nesse review para Batman v Superman, não vou falar que o filme é “grandioso, épico ou outro elogio de uma palavra só”, minha critica abaixo irá descrever isso a vocês, quero falar sobre o fato de que críticos afirmaram que, “Quem não gostou de Man of Steel, talvez Batman v Superman, não seja um filme pra você”. 

Sabe aquelas grandes sagas, eventos ou até mesmo arcos das HQs que o autor pra se defender de críticas sobre seu trabalho? Mandavam essa: “Talvez essa historia não seja pra todos”, até o gênios dos quadrinhos sofreram com esse selo de que suas obras podem não ser pra todos os públicos. Frank Miller e Allan Moore são vitimas desse tipo de rotulo dado pela impressa. Moore e Miller cansaram de lançar bíblias nerds, obras como V de Vingança, Promethea , O Mostro do Pantano, Do Inferno, Watchmen e no caso de Frank Miller, a visão definitiva pra muitos do Homem-Morcego, O Cavaleiro das Trevas.

Obras como a de Miller devem ser sentidas, muito além de apenas lidas, Batman v Superman não se baseia apenas em a batalha dos gladiadores da DC Comics, Dawn of Justice (traduzido para o Brasil, como A Origem da Justiça) trás dois mundos, o filme não tratá os personagens títulos como os “Bad guy ou Nice guy”, são pontos de vistas coesos e que fazem valer o combate no final das contas.

Como era de se esperar, A Origem da Justiça, praticamente começa recapitulando os acontecimentos finais de O Homem de Aço, dessa vez, Zack Snyder trás a batalha Kriptoniana a visão de Bruce Wayne, um homem vendo uma luta de deuses e sofrendo todos os seus danos por isto. Porém, antes, o diretor trás uma das cenas mais belas que eu já vi em uma cinema, a forma que Snyder, mostra a cena das mortes de Thomas e Martha Wayne é espetacular, os primeiros minutos do filme lembram muito o início de Sucker Punch. São poucos minutos que mostra todo o trauma que Bruce Wayne carrega em seu passado, mesmo depois de anos, Bruce com seus quase 50 anos de idade.

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Logo em seguida vemos as cenas finais de Man of Steel, e meio aos destroços, Bruce é coberto pela fumaça de um prédio da Wayne Financial, naquele plano de abertura temos a síntese de Batman V Superman, um herói humano cegado mais uma vez por uma tragédia, diante de um ser quase mítico que ninguém pode saber até onde vai a sua força, da insegurança, surge o medo, do medo, surge a violência, que é manipulável de forma potencial. É dessa dissonância entre os dois heróis que o conflito do filme está plantado.

Algo absolutamente interessante é notar como Zack Snyder constrói bem o ponto de vista do filme. Não é um filme do Batman, muito menos do Superman, o espectador sente com a mesma intensidade a apreensão, a angústia e o medo de Bruce Wayne e a dúvida, os questionamentos e a desconfiança (em torno de si próprio) de Clark Kent. Dessa forma, se a campanha publicitária em torno do filme pedia para que o público escolhesse seu lado, o que é visto na tela é completamente o oposto, a sensação é de perceber o quão falho é este confronto, é notar que nem os super-heróis conseguem entender-se e que isto é assombroso.

Um grande retrato de hoje, época em que não se pode acreditar mais em heróis, e que a salvação vem junto de uma grande desconfiança. São tempos difíceis, quase sem nenhuma esperança e os heróis respondem a isso, evidenciando toda a sua humanidade, logo todas as imperfeições e descrenças.

Dessa forma, Batman v Superman é sobre a humanização de mitos e monumentos, e como toda estátua cunhada em bronze há toda uma história impregnada em seu metal, e nesse sentido, os roteiristas do longa são inteiramente hábeis ao jogar com a história pregressa dos personagens, não perdendo tempo em explicar alguns fatos, ou referências que são entendidas pelo conhecimento quase que natural que temos com aqueles personagens. É diante disso, dessas figuras quase mitológicas da modernidade, que parte para uma construção de todo um universo. Evidentemente que isto faz parte de um fan service que uma franquia de sucesso deve prestar, e deixar pontas abertas com extremo cuidados para serem fechadas no próximo filme é algo totalmente compreensível, mas que chega a ser de uma obviedade ímpar, a sensação é exatamente a de sair dos cinemas com as perguntas que serão respondidas daqui um tempo.

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O trabalho do diretor de fotografia Larry Fong, combinado ao da equipe de efeitos visuais e a de efeitos especiais consegue dar a dimensão gigantesca passada pelo roteiro à tela grande. A sensação de gigantismo e de brutalidade está bem estampada nas cenas em que ela se faz necessária. Assim, como, ao contrário, quando se necessário a intimidade e o segredo, o posicionamento de câmera e a sua movimentação se fazem da forma correta reforçando essas sensações nas cenas nas quais se fazem precisar.

Batman v Superman - 22#Ben Affleck calou a boca de muitos, ele é “O” Batman que esperávamos. Em usa primeira cena caracterizado, Zack Snyder nos trás um Batman assustador, o diretor resgata um terror de filme japonês e Affleck mostra a que veio, essa é a melhor representação do Homem-Morcego nos cinemas indiscutivelmente. O Alfred de Jeremy Irons também é espetacular, os poucos alívios cômicos que o filme trás, nasce dele, ele é a figura mais próxima que Bruce Wayne tem de um pai, e Irons entrega um “mordomo” fiel e que desafia em vários momentos do filme os ideias de seu patrão. O Editor-Chefe do Planeta Diário, Perry White de Laurence Fishburne rouba a cena em vários momentos, ele tem provavelmente as melhores linhas de diálogo do filme.

A estrutura apresenta para as apresentações dos outros membros da Liga da Justiça não soam gratuitas, há toda uma apresentação e preparação muito bem trabalhada para que esses fatos aconteçam, destaque para a participação de Barry Allen, em sua primeira aparição. Flash é mostrado no filme de uma forma inesperada, trazendo com si, inúmeras perguntas para o futuro da DC Comics no cinema.

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A Mulher Maravilha é um dos vários pontos altos que o filme apresenta, a atriz Gal Gadot é outra que calou a boca de muitos. É uma pena que a personagem tenha tido pouco tempo de tela e que boa parte do que tenhamos visto dela estava nos trailers, porém conseguimos perceber que Diana, assim como os personagens títulos trás traumas de “guerras passadas”. A Mulher-Maravilha de Gadot é de uma interessante construção, na qual o fascínio pela personagem vai aumentando ao longo do filme, para que só depois seja possível presenciar seus incríveis poderes.

E se essa demonstração da força dos heróis mais conhecidos do mundo é de fato impressionante e as habilidades de Zack Snyder nessas situações são inquestionáveis, o cineasta derrapa quando precisa tocar e emocionar, sendo muitas vezes apelativo nesse sentido. Quando Batman v Superman necessita dar uma mensagem mais clara, direta e emotiva, percebe-se uma falta de sensibilidade de seu realizador.

E por isso que é interessante notar como Batman v Superman consegue dizer muito quando não é óbvio e quando tenta ser claro comunica muito pouco, e num estilo mais contido de Snyder na direção é notável as grandes imagens que ele produz, como por exemplo um momento em que Lex Luthor faz com que o Superman se ajoelhe diante dele, colocando um semideus aos pés de um simples mortal, num plano muito interessante.

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Por isso, entre as grandes sequências de ação, entre as inúmeras referências, ou o melodrama de Snyder fico com o que Batman v Superman evoca, o que suas personagens, falas e imagens representam, funcionando quase como uma mitologia moderna, logo uma tradução de nossos tempos.

Batman v Superman: A Origem da Justiça tem muito a dizer, desde seu momento muito sombrio, até um futuro de esperança, mas que vem acompanhado por muita luta.